Falta de aço e de insumos é obstáculo à retomada

atualizado em 09/10/2020

Mal começou a dar os primeiros sinais de recuperação, ao menos no mercado doméstico, e a indústria de máquinas e equipamentos já começa a enfrentar dificuldades com a falta de matérias-primas, principalmente aços, sem contar o aumento no custo deste insumo, com reflexos nos prazos de entrega e na diminuição de margens.

Em coletiva de imprensa realizada na última quarta-feira (30/09), José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, disse que o setor - um dos principais consumidores de aço no País - também enfrenta a falta de outras matérias-primas, como alumínio, bronze, cobre, aço inox e plástico. Levantamento da entidade junto a seus associados apurou desabastecimento de uma longa lista de itens, já próxima de 3 mil.

No caso do aço, o problema é mais grave. Mais de 90% das empresas do setor de máquinas e equipamentos compram o material nas distribuidoras ("só grandes empresas com grandes volumes têm condições de comprar diretamente nas usinas", disse). Além disso, mencionou que algumas distribuidoras estão promovendo verdadeiros leilões, atingindo aumentos de preço de até 50%, o que é agravado pelo fato de este ano já terem sido praticados dois aumentos no preço do aço: um de 15% (em média) e outro, mais recente, de 10%. "As usinas estão produzindo hoje a metade de sua capacidade instalada e está faltando aço. Está ocorrendo um verdadeiro leilão nas distribuidoras", afirmou o executivo, lamentando o fato de algumas empresas, num momento como o atual, estarem adotando tal prática.

A falta de disponibilidade é classificada por Velloso como um problema seríssimo, com o qual a indústria terá que conviver por um tempo, apesar da existência de cronogramas de reativação de altos-fornos e de normalização do setor. "Soma-se a isso o aumento nas exportações de aços. Essa situação está gerando atraso na entrega de máquinas e perda de margem de lucro. Estamos pagando mais caro, perdendo margem e atrasando entregas. Vamos ter de vender com prazo e preço maiores", destacou Velloso.

Retomada mais rápida que o previsto - Em janeiro de 2020, a indústria do aço operava com 63% de sua capacidade produtiva de 51,5 milhões de toneladas/ano. Com a chegada do novo coronavírus e a paralisação ou diminuição do ritmo em diversos setores - automotivo, bens de capital, construção civil, entre outros - o índice chegou a 42% em abril, quando foi registrado o pico da queda na demanda. De acordo com o Instituto Aço Brasil, a retomada econômica está ocorrendo de forma mais rápida que o previsto, embora a utilização da capacidade instalada já esteja novamente em 63%. Atualmente, a siderurgia nacional conta com 32 usinas (15 integradas e 17 mini-mills), administradas por 12 grupos.

Devido à pandemia, em abril, três sinterizações, 13 altos-fornos, três aciarias e sete laminações foram paralisados. Com o reaquecimento das atividades, a maioria dessas unidades já voltou a operar. "Nesse momento, todas as sinterizações, aciarias e laminações estão funcionando. Dos 13 altos-fornos que foram desligados por conta da crise, somente seis ainda estão parados. Mesmo assim, dois deles estão na usina de Cubatão e foram paralisados antes da pandemia", explicou Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, em coletiva de imprensa realizada na última quinta-feira (01/10). A expectativa é a de que, até o final deste ano e início do próximo, a utilização da capacidade produtiva chegue a 70 ou 75%.

Recuperação com V maiúsculo - Lopes apontou que o setor - que vem de um longo período de queda, de 2013 a 2019 - está em resiliência. "Estamos vivendo uma reação fantástica. Uma recuperação em V, com o V maiúsculo", disse. Ainda de acordo com o executivo, o mercado de construção civil vem especulando sobre o desligamento de altos-fornos. "Não procede, isso é fabricar uma crise que não existe", destacou.

A crise, muito comentada no mercado, está relacionada à falta de insumos industriais, entre eles o aço, e à alta nos preços. "A indústria, depois de décadas sofrendo, assiste a um ano pujante, como não vemos há tempos. O retorno em V maiúsculo causou algo que o país não está acostumado e, por isso, as cadeias de suprimentos e de distribuição foram esvaziadas. Houve uma redução do nível de estoques, que é uma estratégia de sobrevivência adotada pela indústria", afirmou Carlos da Costa, secretário Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia (Sepec/ME), que participou da coletiva de imprensa.

Para Costa, até os estoques serem repostos, durante os próximos dois ou três meses, o Brasil terá que lidar com a falta de alguns produtos e altos preços. "São as dores da retomada e elas serão sentidas principalmente na ponta", disse. O secretário comparou, como já feito pelo ministro da economia Paulo Guedes, a retomada da economia a um urso em período de hibernação: que "quando sai da caverna, sai forte".

"Qualquer intervenção pode prejudicar a cadeia de crescimento", afirmou o secretário. Este crescimento, em sua avaliação, está relacionado principalmente ao retorno das obras da construção civil que foram paralisadas nos primeiros meses da pandemia - segmento que responde por 37,6% do mercado de consumo de aço, seguido pelo automotivo (24,1%) e de bens de capital (20,5%). Juntos, esses setores representam somam 82,2% do mercado consumidor de aços. A tendência, disse Costa, é que os estoques voltem à normalidade, como no período pré-crise, entre outubro e novembro.

Alumínio - Para Milton Rego, presidente-executivo da Abal - Associação Brasileira do Alumínio, estamos vivendo uma bolha inesperada de consumo combinada com uma questão de gestão de estoques. "A partir do segundo trimestre, ali em abril, a indústria reduziu seus estoques porque ninguém tinha ideia de quando a demanda doméstica começaria a se recuperar. Foi a hora de diminuir estoques e privilegiar o caixa. Agora, a ponta quer comprar e as empresas estão desabastecidas. Essa situação deve se ajustar entre 30 e 60 dias", pontua.

Segundo Rego, é importante lembrar que as empresas de alumínio associadas à Abal não pararam de produzir durante a pandemia, uma vez que o alumínio foi considerado um insumo estratégico no combate à Covid-19. "O que aconteceu é que, com diminuição do consumo doméstico, algumas empresas direcionaram a sua produção para outros mercados, porque os compradores nacionais diminuíram os seus estoques", explica o executivo, acrescentando que em sua avaliação as perspectivas para 2021 são de crescimento: "Se nada de excepcional acontecer, devemos chegar ao final de 2021 com os mesmos níveis de 2019".

Fonte: Usinagem Brasil

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